Quando Anitta decidiu que seu próximo projeto seria um mergulho na espiritualidade brasileira, nas religiões de matriz afro-brasileira e em sonoridades experimentais bem distantes do reggaeton, a Republic Records não estava disposta a embarcar na ideia.

A gravadora, que havia assinado com a cantora após o fenômeno global de "Envolver", esperava a continuidade de uma trajetória voltada ao público internacional, com músicas em espanhol e inglês, no mesmo ritmo que havia levado o nome dela ao topo do Spotify Global. O que veio foi o oposto.

A proposta que Anitta levou ao selo era a de um álbum dividido em atos, com a primeira parte inteiramente em português e direcionada ao público brasileiro. Para os executivos internacionais da gravadora, o conceito soava arriscado demais do ponto de vista comercial, algo de nicho, distante do perfil que eles queriam consolidar para a artista no exterior. A negativa veio na forma de recusa ao financiamento do projeto.

Sem o apoio do selo, a cantora optou por uma saída que exigiu coragem e muito dinheiro. Usando a estrutura da Floresta Records, sua própria operação, Anitta assumiu pessoalmente todos os custos de produção do "EQUILIBRIVM".



O resultado foi o álbum mais caro que ela já fez. Na coletiva de imprensa realizada durante o lançamento, em abril, a artista não divulgou o valor investido, mas foi enfática ao descrever a dimensão do gasto: segundo ela, houve um período em que trabalhou menos do que o habitual, o que reduziu seus ganhos e ainda assim ela decidiu investir pesado no projeto. "Foi o álbum que mais gastei dinheiro em tudo", declarou na ocasião.

A equipe de visuais do disco também relatou os desafios de conduzir uma produção dessa escala sem a estrutura de marketing e os recursos que uma grande gravadora normalmente oferece. As gravações e entregas foram realizadas com prazos apertados e verbas enxutas, exigindo criatividade e jogo de cintura para dar vida às ideias elaboradas por Anitta.

O disco trouxe faixas como "Desgraça" e "Choka Choka", parceria com Shakira que movimentou as redes sociais e até enfrentou acusações de plágio, rapidamente desmentidas pelos fãs.

A identidade coesa do projeto foi amplamente reconhecida pela crítica como um avanço em relação à fase em que Anitta atirava para todos os lados na busca por um hit internacional.

Esse tipo de impasse com gravadoras não é novidade para a cantora. Antes de migrar para a Republic Records em 2023, ela já havia travado disputas com a Warner Music por conta de diferenças na visão sobre divulgação e investimento.

Na época, Anitta criticou publicamente a lógica de aguardar que uma música viralizasse espontaneamente para só então receber suporte financeiro para clipes e promoção.

A chegada ao novo selo aconteceu num momento de força: impulsionada pelo alcance de "Envolver", ela entrou na negociação com poder de barganha. Agora, ao financiar sozinha o projeto mais ambicioso da carreira, deixa claro que, quando a gravadora não acredita na sua visão, ela mesma banca.