Quando o BTS lançou o álbum "ARIRANG" em 20 de março de 2026 — o primeiro disco do grupo desde o retorno de todos os membros ao serviço militar obrigatório na Coreia do Sul —, a escolha do nome já era uma declaração de intenções.
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Mas é na faixa de abertura, "Body to Body", que essa intenção ganha forma sonora: em plena ponte da música, a melodia secular do canto folclórico "Arirang" irrompe em um arranjo coral, fundindo percussão de samulnori, hip-hop e um patrimônio cultural de séculos.

"Arirang" não é apenas uma música. É considerada a canção mais representativa da identidade coreana, com cerca de 3.600 variações regionais catalogadas ao longo de séculos.

A UNESCO a reconheceu como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2012. A versão utilizada no álbum do BTS é a "Gyeonggi Arirang", a variante mais conhecida internacionalmente, associada a sentimentos de distância, saudade e, ao mesmo tempo, de reencontro e celebração coletiva.

Durante a ocupação japonesa no início do século XX, a canção virou hino de resistência silenciosa. Após a divisão da península coreana em 1945, passou a simbolizar também a esperança pela reunificação. Que o BTS a trouxesse agora, logo após o retorno de seus membros do serviço militar, não é coincidência — é poesia.



A decisão de incluir "Arirang" em "Body to Body" não foi imediata nem unânime. Segundo fontes da indústria, a ideia partiu de Bang Si-hyuk, presidente da HYBE e produtor executivo do álbum. Durante um acampamento de composição realizado em Los Angeles no verão passado, os membros do grupo e o produtor Pdogg testaram repetidamente versões da faixa com e sem o sample da canção folclórica. Alguns integrantes temiam que a referência soasse excessivamente direta ou fosse interpretada como um gesto de nacionalismo exacerbado.

Foi Bang Si-hyuk quem os convenceu com uma imagem simples, mas poderosa: "Imaginem uma plateia estrangeira cantando 'Arirang' junto com vocês em um estádio." A partir desse momento, a discussão mudou de tom.

O diretor criativo Lee Bo-young também participou do processo, compartilhando reflexões sobre o significado cultural da canção. A decisão final, segundo a HYBE, foi deixada integralmente nas mãos dos membros, que continuaram debatendo o tema após o retorno a Seul antes de confirmarem a inclusão da melodia.

"Body to Body" tem a participação na composição de nomes como Ryan Tedder, Diplo, Teezo Touchdown, além dos próprios RM e SUGA.

Apesar do título e do refrão que evocam proximidade física — "I need some body to body / All of your body beside me" (“Eu preciso de corpo a corpo / De todo o seu corpo ao meu lado”) —, a música não é uma canção de amor convencional. É uma celebração da conexão entre o BTS e seus fãs ao vivo, um manifesto sobre a energia insubstituível de um show presencial.

O trecho de "Arirang" que surge na ponte transforma esse sentimento em algo ainda maior: não é mais sobre um artista e seu público, mas sobre um povo e sua memória coletiva sendo compartilhados com o mundo inteiro.

A imprensa internacional recebeu a faixa com entusiasmo. A Rolling Stone descreveu "Arirang" como uma canção historicamente ligada ao luto e à resistência, observando que "Body to Body" captura o momento em que o ancestral e o contemporâneo se encontram.

A publicação britânica Clash destacou que o uso da melodia reforça as raízes coreanas do grupo ao mesmo tempo em que evidencia sua evolução musical.

O retorno do grupo ao palco na Praça Gwanghwamun — o coração simbólico de Seul — também fez parte da visão de Bang Si-hyuk, que afirmou que o BTS, tendo conquistado o mundo a partir da Coreia, deveria retornar "ao lugar mais simbólico" do país.

Com "Body to Body", o grupo não apenas voltou — voltou carregando séculos de história na bagagem.