A plataforma de streaming Deezer revelou na segunda-feira (20) que está recebendo quase 75 mil faixas geradas por inteligência artificial por dia — o equivalente a mais de 2 milhões de músicas criadas por IA todo mês.

O número representa 44% de tudo o que é enviado diariamente à plataforma, e acende um sinal de alerta para toda a indústria fonográfica.

O crescimento é vertiginoso. Em janeiro de 2025, quando o Deezer lançou sua ferramenta de detecção de músicas geradas por IA, eram apenas 10 mil faixas artificiais por dia. Em setembro do mesmo ano, o número havia triplicado para 30 mil. Em novembro, chegou a 50 mil. Em janeiro de 2026, atingiu 60 mil. E agora, em abril de 2026, ultrapassou a marca de 75 mil — um crescimento de mais de 650% em pouco mais de um ano.

"A música gerada por IA está longe de ser um fenômeno marginal, e à medida que as entregas diárias continuam aumentando, esperamos que todo o ecossistema musical se una a nós para proteger os direitos dos artistas e promover a transparência para os fãs", declarou Alexis Lanternier, CEO do Deezer.

Apesar do volume alarmante de uploads, o consumo dessas músicas ainda é baixo: apenas 1% a 3% do total de streams na plataforma envolve faixas de IA. Desse porcentual, 85% são identificadas como fraudulentas e desmonetizadas automaticamente. Para dificultar ainda mais o abuso, o Deezer anunciou que deixará de armazenar versões em alta resolução de faixas geradas por IA.

As medidas do Deezer são as mais rigorosas entre as grandes plataformas de streaming. Desde junho de 2025, a empresa foi a primeira a etiquetar faixas de IA diretamente na plataforma. Ao longo daquele ano, mais de 13,4 milhões de faixas artificiais foram marcadas. Músicas identificadas como geradas por IA são automaticamente removidas das recomendações algorítmicas e excluídas de playlists editoriais.

O tema ganhou ainda mais urgência na semana passada, quando uma música 100% gerada por IA chegou ao topo das paradas do iTunes nos Estados Unidos, Reino Unido, França, Canadá e Nova Zelândia — a primeira vez que uma faixa sem nenhuma intervenção humana alcançou o número 1 em múltiplos países simultaneamente.

Uma pesquisa realizada pelo Deezer em parceria com o Ipsos revelou dados preocupantes: 97% dos participantes não conseguiram distinguir uma música totalmente gerada por IA de uma criada por humanos. Além disso, 52% dos entrevistados acreditam que músicas 100% artificiais não deveriam competir nas mesmas paradas que as humanas, e 80% defendem que esse tipo de conteúdo seja claramente identificado para os ouvintes.

Outras plataformas também começaram a agir. O Qobuz, serviço francês de streaming de alta fidelidade, anunciou em fevereiro planos para etiquetar conteúdo gerado por IA. Já o Spotify e o Apple Music adotam abordagens distintas, combinando filtros para identificar músicas de baixa qualidade com esforços de transparência deixados a cargo dos distribuidores.