Algumas das músicas mais famosas da história não nasceram de grandes declarações de amor ou protestos óbvios, mas de sonhos vívidos, piadas internas, objetos banais e até crimes reais.

Por trás de melodias que atravessaram gerações, há histórias improváveis, letras que surgiram enquanto o compositor dormia, frases escritas na parede por acaso ou imagens perturbadoras transformadas em poesia sonora.

Nesta seleção, reunimos cinco canções icônicas cujas inspirações são tão estranhas quanto fascinantes. Confira abaixo:

"Yesterday"- Beatles

Segundo relatos de Paul McCartney e biógrafos dos The Beatles, a famosa melodia de "Yesterday" surgiu inteiramente em um sonho que Paul McCartney teve durante sua estadia na casa de sua então namorada, a atriz Jane Asher, em Londres.

Ao acordar, ele correu até um piano para tocar a música de memória, com a melodia completa ainda na cabeça, por medo de esquecê-la.

Inicialmente, McCartney passou semanas perguntando a colegas da indústria musical se alguém já tinha ouvido aquela melodia antes, pois tinha medo de tê-la criado inconscientemente a partir de outra canção, algo que ninguém reconheceu, e só então aceitou que era uma criação original sua.



"Wuthering Heights" - Kate Bush

"Wuthering Heights", canção que lançou Kate Bush ao estrelato internacional, foi inspirada diretamente no romance "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë, e escrita do ponto de vista do fantasma de Catherine Earnshaw.

Em entrevistas concedidas à BBC e a veículos como The Guardian e Rolling Stone, Bush explicou que teve a ideia após assistir a uma adaptação televisiva do livro e ficar profundamente impactada pela cena em que o espírito de Catherine chama por Heathcliff na janela.

A letra, narrada literalmente por uma personagem morta, traduz esse lamento sobrenatural em versos etéreos e obsessivos, algo extremamente incomum na música pop da época e que se tornaria uma das marcas autorais mais ousadas de Kate Bush, unindo literatura gótica, narrativa em primeira pessoa pós-morte e uma interpretação vocal quase espectral.



"Smells Like Teen Spirit" – Nirvana

O título nasceu de um desodorante feminino. Kathleen Hanna, da banda Bikini Kill, escreveu “Kurt smells like Teen Spirit” ("Kurt cheira a Teen Spirit") na parede do quarto de Kurt Cobain, referindo-se ao perfume usado por sua namorada, chamado "Teen Spirit". A história foi confirmada em diversas entrevistas à Rolling Stone e à BBC.

Sem saber que se tratava de uma marca de desodorante, Cobain interpretou a frase como um slogan revolucionário de espírito punk. O episódio aconteceu quando Hanna e Cobain estavam hospedados na casa dele, e a inscrição na parede era apenas uma piada ligada à sua vida pessoal.

A frase, no entanto, ficou marcada e acabou sendo reaproveitada por Cobain como título da música que ele estava desenvolvendo com a intenção declarada de “copiar os Pixies”, explorando o contraste entre versos suaves e explosões sonoras intensas.



"Bizarre Love Triangle" - New Order

A letra surgiu de um sonho recorrente de Bernard Sumner envolvendo um triângulo amoroso confuso e emocionalmente claustrofóbico. O próprio compositor relatou a origem onírica em entrevistas ao NME e ao The Guardian, reforçando a atmosfera quase irreal da música.

A partir desse material subconsciente, "Bizarre Love Triangle" acabou se transformando em uma das composições mais emocionais e contraditórias do New Order.

Bernard Sumner explicou que o sonho capturava a sensação de estar preso entre desejo, culpa e insegurança, sentimentos que ele tentou preservar na letra, mesmo após acordar. Essa origem ajudou a definir o tom ambíguo da música: ao mesmo tempo romântica e desconfortável, íntima e distante, refletindo a lógica fragmentada dos sonhos.



"Riders On The Storm" - The Doors

"Riders On The Storm" tem uma das inspirações mais sombrias da história do rock. Jim Morrison concebeu a letra a partir da imagem de um “assassino na estrada”, ideia influenciada pelo caso real de Billy Cook, um criminoso que assassinava famílias inteiras enquanto cruzava os Estados Unidos de carro no início dos anos 1950.

Segundo biografias oficiais da banda e entrevistas do próprio Morrison preservadas em arquivos da BBC, o vocalista ficou obcecado pela figura do homicida errante após ler reportagens sobre o caso, fundindo essa ameaça invisível às imagens poéticas de tempestade, isolamento e paranoia.

O resultado é uma canção que funciona quase como um filme sonoro, na qual a estrada deixa de ser símbolo de liberdade e passa a representar perigo iminente, morte e o lado mais perturbador do imaginário americano.