Woodstock foi ao mesmo tempo um fim e um início. O festival, que hoje (15 de agosto) completa 50 anos, entrou para a história como o primeiro mega-evento da era do rock e mostrou que os jovens tinham força e poder. Porém, ele marcou o fim de uma era onde se acreditava que a paz e o amor reinariam e que todos viveríamos em um mundo anti-materialista e solidário. Assim, o que era pra ser o pontapé inicial para uma nova ordem não se concretizou, ainda que as raízes ali plantadas ainda estejam gerando frutos. Mas é sintomático pensar que, poucos meses depois, outro grande festival, o de Altamont, criado pelos Rolling Stones, terminou em brigas, desordens e um assassinato, em um evento que costuma ser lembrado quando o momento em que o sonho hippie desabou.
Richie Havens

Mas Woodstock foi muito mais que isso. Os "três dias de paz e música", ainda perduram. Quando o documentário foi lançado em 1970, jovens de inúmeros países que não recebiam grandes shows - incluindo o Brasil - tiveram um gostinho da coisa. Assim, várias "cenas hippies" locais foram surgindo, ao mesmo tempo em que nos Estados Unidos o clima já estava bem mais paranoico, com a cocaína e a heroína tomando o lugar do que antes era LSD e maconha, e o clima pesando com o retorno dos soldados do Vietnã, exibindo sequelas da guerra, e o governo de Richard Nixon, que, vale lembrar, também começou em 1969, apertando ainda mais o cerco em cima da contracultura.

Do ponto de vista musical, Woodstock também deixou sua marca. Quem viu o filme (que, curiosamente, tinha um ainda desconhecido Martin Scorsese na equipe técnica) não se esquece das performances de The Who, Santana, Joe Cocker e Jimi Hendrix.

No total, o festival teve 32 atrações musicais de estilos variados, ainda que com pouca representatividade da música negra. Houve muita psicodelia, hard rock, blues pesado, folk e até um pouco de world music, seja nas fusões latinas de Santana ou nas ragas do indiano Ravi Shankar. Woodstock também não teve os três maiores nomes da época: Bob Dylan, Rolling Stones, e claro, Beatles, mas essas ausências foram compensadas com Creedence Clearwater Revival (abaixo) , Janis Joplin, The Who e Jimi Hendrix.
Creedence Clearwater Revival

O festival também abriu a porta do sucesso para muita gente, notadamente Santana, Joe Cocker e o Ten Years After. E também teve algumas atrações que nunca conseguiram capitalizar em cima do evento, nomes como Quill, Sweetwater, The Keef Hartley Band ou Bert Sommer, todos quase completamente esquecidos.

Com o cancelamento da edição que iria ser feita para marcar a data, o grande marco desse cinquentenário é mesmo o lançamento do box "Back to the Garden" que, em sua edição mais completa, traz em inacreditáveis 38 CDs a íntegra do festival, incluindo não só todos os shows completos, mas também os divertidos anúncios feitos do palco, que vão desde comunicados sobre pessoas perdidas até o conselho para que as pessoas não tomassem o "ácido marrom" que era "de péssima qualidade".

The Who
O caixote serve para que finalmente seja possível averiguar alguns mitos sobre os três dias. Assim, fica claro que o show do Creedence, que não apareceu no filme e que sempre foi renegado por John Fogerty, como uma apresentação menor da banda, foi, de fato, muito bom.

O mesmo valendo para as performances de The Band e até de Tim Hardin, que fez um concerto aceitável e relativamente longo - segundo a lenda, ele estava totalmente intoxicado a ponto de mal conseguir se apresentar e teria feito um show de apenas 20 minutos.

Por outro lado, o Grateful Dead de fato fez um show displicente, com muitas interrupções e até uma versão de 40 minutos de "Turn On Your Love Light".

É óbvio que poucas pessoas irão querer ouvir todo esse material mais de uma vez na vida - porém cada uma delas certamente deverá retirar dali as suas performances favoritas - mas a audição, mesmo que por uma única vez, não deixa de ser instrutiva.
Jimi Hendrix

Enfim, se alguma vez na vida você já se viu em um descampado lotado, cheio de lama, gente bêbada e um palco com diversas atrações já sabe a quem deve agradecer (ou culpar): um evento acontecido há 50 anos na cidade de Bethel (o festival na verdade aconteceu nessa cidade distante cerca de 60 quilômetros da de Woodstock) que tem uma mítica que dificilmente irá se apagar.

Veja abaixo dez momentos marcantes do festival

Ritchie Havens cantando "Freedom"
O primeiro dia de festival foi dedicado a artistas mais ligados à música folk e coube a Havens a honra de abrir o festival com seu jeito peculiar de tocar violão, usando o polegar da mão esquerda. Richie, que morreu em 2013, recheou seu set com covers dos Beatles, mas o momento que ficou imortalizado, foi a canção Freedom, que, segundo ele, foi composta no ato, ali mesmo, a partir de uma canção tradicional.



Country Joe McDonald com "Feel Like I'm Fixing To Die Rag"
Country Joe, grande nome da cena psicodélica, foi a única pessoa a se apresentar duas vezes em Woodstock. No segundo dia, como solista, e no terceiro, com o Country Joe and the Fish. O momento que ficou para a história foi a dele cantando acompanhado de seu violão essa bem-humorada música de protesto contra a guerra do Vietnã.



Santana com "Soul Sacrifice"
O guitarrista Carlos Santana é daqueles que podem dizer que devem a sua carreira ao festival, já que antes de começar a tocar naquele sábado de 16 de agosto, poucos sabiam quem era ele e a banda que levava o seu sobrenome. Mas não demorou muito para o mundo tomar conhecimento da brilhante mistura de rock, jazz, blues e ritmos latinos que eles faziam. 50 anos depois, entre todos os participantes do festival, é ele, ao lado do The Who, quem tem a carreira mais ativa e bem sucedida comercialmente - tanto que há poucos meses o músico lançou um álbum muito elogiado pelos críticos e bem recebido pelo público.



Creedence Clearwater Revival com "Born On The Bayou"

O Creedence se apresentou depois do Grateful Dead, que, ao que se consta, deixou o público exausto, com um concerto em ele tocaram apenas cinco músicas em quase duas horas. Por isso o líder da banda, John Fogerty, nunca guardou boas recordações de sua experiência no festival, a ponto de, por décadas, não ter permitido que o concerto viesse à público - a íntegra do show só está sendo conhecida agora. Mas basta dar uma rápida olhada nessa versão de "Born on the Bayou", escolhida como música de abertura do show, para ver que Fogerty estava sendo por demais exigente, já que o concerto mostra uma banda entrosada e com um repertório daqueles de dar inveja. O Creedence ainda teria mais alguns anos de brilhantismo, antes de ter chegado ao fim melancolicamente em 1972. Hoje, Fogerty segue carreira solo, enquanto os outros dois sobreviventes, o baixista Stu Cook e o baterista Doug Clifford, se apresentam no circuito "da saudade" como Creedence Clearwater Revisited.



Janis Joplin com "Ball And Chain"
Por problemas contratuais, a participação de Janis Joplin em Woodstock foi outra que ficou de fora do filme e dos discos da época que documentaram o evento. A situação só foi remediada já na era do CD, quando finalmente os registros, em áudio e vídeo, vieram à tona. Janis estava aqui com a Kozmic Blues Band, um agrupamento mais profissional que o Big Brother and the Holding Company, com quem ela foi revelada, mas sem o mesmo feeling de sua primeira banda. De forma que o concerto dela não atingiu os picos de excitação de outrora. Soube-se depois que ela só subiu ao palco dez horas depois de ter chegado ao local, e que ela passou esse tempo fazendo farto uso de drogas e álcool, o que ajuda a explicar a performance um tanto abaixo da média, mas inegavelmente histórica da cantora que morreria menos de um ano depois desse show (em 4 de agosto de 1970).



Sly and the Family Stone com "I Want To Take You Higher"

Se no festival de Monterey, acontecido em 1967, o show foi praticamente roubado por Otis Redding, aqui foi outro grande nome da black music que fez o mesmo. O concerto de Sly foi uma aula de rock, soul e funk com alto poder de estimulação de sentidos e aconteceu com todos no auge de suas formas. Infelizmente, Sly Stone logo teria sérios problemas com drogas, ainda que tenha deixado um clássico do "funk paranoico", o álbum "There's A Riot Going On" de 1971. Hoje, ele praticamente sumiu da vista do público, e é uma triste sombra do grande artista que foi um dia.



The Who com "See Me, Feel Me/Listening To You"
Woodstock botou o The Who em um novo patamar e também transformou o vocalista Roger Daltrey em um legítimo "deus do rock". O quarteto fez um show vigoroso, para não dizer violento, que teve como base uma execução quase que na íntegra da ópera rock "Tommy". O vídeo abaixo traz o segmento final da obra mais emblemática do grupo, que logo se tornaria um dos maiores do planeta, e que, em breve, lançará mais um álbum.



Jefferson Airplane com "Somebody to Love"
Se o Grateful Dead fez um show, na melhor das hipóteses, irregular, a outra grande banda da cena psicodélica de São Francisco, o Airplane, se deu melhor, mesmo só podendo começar o seu show às 8 da manhã de domingo. A banda fez um show de "música maníaca para manhã", como brincou a vocalista Grace Slick, com uma equilibrada de momentos mais "despirocados", e outros mais pé no chão, o caso dessa ótima versão de um de seus maiores hits que ficou de fora da versão original do filme (mas foi adicionada nas reedições especiais do documentário).



Joe Cocker com "With A Little Help From My Friends"
A "abertura oficial" do terceiro dia de festival se deu com uma performance poderosa do inglês Joe Cocker. A sua versão para esse clássico dos Beatles se tornou uma das mais emblemáticas do século 20 e é das primeiras que nos vêm à cabeça quando pensamos em Woodstock. O cantor morreu em 2014 aos 70 anos.



Jimi Hendrix tocando a sua versão para o "Hino dos Estados Unidos"
Quando Jimi Hendrix subiu ao palco para fazer o show de encerramento do festival, boa parte das 400 mil pessoas que estiveram na fazenda de Max Yasgur já haviam deixado (ou estavam tentado deixar) o local, de forma que a maioria das pessoas que estiveram em Woodstock ironicamente não viram um dos melhores shows da história do rock. É fato que o guitarrista estava com uma banda nova, e, devido aos inacreditáveis atrasos, só começou a tocar às 9 da manhã do dia 18. Mesmo com esses contratempos, o guitarrista entregou um show que marcou e, com sua versão do Hino Norte-americano, deixou ainda um momento antológico para ser registrado pela equipe que fazia o documentário do festival. Que ele tenha morrido exatamente um ano e um mês depois dessa performance é não menos que lamentável.